O horizonte pós-COP26

dezembro 3, 2021

Quase um mês após a COP26, muitos textos e webinars já foram publicados com o objetivo de destrinchar seus resultados. Tratar do assunto após esse período de digestão possibilita, de um lado, apresentar uma lista de boas leituras para quem busca os detalhes1 e, do outro, ter uma visão mais clara sobre os impactos do Pacto de Glasgow no dia a dia das organizações e das pessoas.

“Importantes avanços, porém insuficientes para evitarmos um aquecimento maior do que 1,5ºC neste século. #cop26”

Esse seria o resumo dos resultados em um Tweet. Algumas análises focam mais nos avanços, em especial quando a autoria é uma fonte governamental, outras dão mais luz às lacunas, principalmente quando é a sociedade civil se manifestando. Independentemente dos vieses, é possível extrair algumas tendências que se fortalecerem com os resultados de Glasgow e que ditarão o ritmo das mudanças que estão por vir:

O processo da ONU é incremental, mas a solução necessária é exponencial

As decisões da ONU são todas tomadas por consenso, o que faz com que um país insular no meio do Pacífico tenha tanta influência no resultado das COPs quanto a China ou US. Por um lado, é justo que seja assim, pois os efeitos das mudanças no clima são sentidos de forma totalmente diferente pelos países e, assim, uma decisão pela maioria poderia gerar injustiças irreversíveis, como o desaparecimento completo de uma ilha no meio do Pacífico.

Por outro lado, o consenso força a ambição para o mínimo denominador comum, pois tem de acomodar diversos interesses e realidades em um mesmo texto. Portanto, o processo da ONU é justo, porém lento e não dá para esperar dele muito mais do que “avanços, porém não suficientes”. 

O que o processo precisa, e que foi observado na COP26, é trazer clareza sobre como iremos coletivamente alcançar esse desafio, de forma a reduzir incertezas e riscos e, por fim, destravar investimentos privados.

Estes sim funcionam em uma lógica de inovações exponenciais. A revolução digital, a última grande pela qual passamos, é prova disso. Houve uma fase de construção progressiva das bases tecnológicas, até que uma pessoa iluminada inseriu em um celular a possibilidade de navegar na internet. Booom! Mudança disruptiva, rápida e global, nos moldes da que precisamos para a crise climática. 

Os side events e external events não são mais coadjuvantes

Ao olharmos para o lado privado da força, a esperança permanece e se fortalece a cada ano. Os veteranos de COPs sabem que há uma tendência muito clara desde Paris, em que os side-events, representando o setor privado, e os external-events, representando as crescentes movimentações da sociedade civil, têm influenciado nosso futuro climático tanto quanto as negociações oficiais. 

O engajamento de empresas não tem precedentes e, com ele, o crescimento exponencial observado no mercado voluntário de carbono, atingindo o recorde histórico de US$1bi transacionados em 2021. Esse engajamento não é casual, tampouco movido exclusivamente pela conscientização dos executivos. Há no pano de fundo a pressão cada vez maior da sociedade, no papel de consumidores e povos tradicionais, e há também pressão do mercado investidor, exímios em análises de riscos e oportunidades futuras e que, portanto, já têm as mudanças climáticas como uma prioridade no radar. 

Portanto, há de se fazer essa ressalva quanto ao termo voluntário dado a este mercado. E há de se reconhecer também que este processo, de baixo para cima e autorregulado, não vai parar independentemente do resultado das COPs. 

Sinal verde para o mercado

Glasgow foi o primeiro “checkpoint” do Acordo de Paris e conseguiu entregar o que o mercado buscava: transparência e credibilidade contábil. Com isso, o aspecto com maior potencial de impacto positivo do Acordo de Paris, o famigerado Artigo 6, tem um caminho menos tortuoso pela frente.

A onda crescente do mercado observada nos últimos três anos será intensificada, os volumes transacionados serão exponencialmente maiores e, consequentemente, o valor dos créditos também. Essa é uma tendência que deve durar ao menos até 2030, quando as emissões líquidas globais devem cair 50% para ficarmos dentro do nosso orçamento de carbono do século. 

Dentre os tipos de projetos passíveis de geração de créditos, há cada vez mais reconhecimento da importância de soluções baseadas na natureza.  Estes projetos, atrelados aos setores florestais e agrícolas, representam oportunidades custo-efetivas de se reduzir emissões e, principalmente, remover carbono da atmosfera; promovem inúmeros cobenefícios ambientais, sociais e econômicos no nível local, e ainda constituem medidas fundamentais para a resiliência frente às mudanças climáticas em setores cruciais como de produção de alimentos, abastecimento de água e geração de energia. Após décadas de dominância dos projetos com energia, o mercado agora é mais verde do que nunca.

E o que vem no horizonte?

Com o livro de regras de Glasgow, os próximos anos verão barreiras cada vez mais permeáveis entre os mercados regulados e o mercado voluntário, com potencial para termos em breve, finalmente, um novo mercado global pós-Kyoto.

Ao mesmo tempo, a demanda por offsets deve se deslocar para projetos que promovam a remoção de emissões da atmosfera, como projetos de restauro florestal, agropecuária regenerativa e de captura e armazenamento de carbono em indústrias (CCS). Tudo isso em uma visão otimista do enorme esforço para alcançar a meta global de Net Zero até 2050.

Por fim, com o advento de novas tecnologias e continuidade no aumento da pressão de stakeholders, é provável que uma parte substancial da gestão e redução de emissões de GEE seja internalizada pelas empresas, o que pode promover um maior equilíbrio entre oferta e demanda em uma visão de médio e longo prazo para o mercado.

Roberto Strumpf, Diretor da Radicle Brazil


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