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COP 26: Um momento de urgência e oportunidade

October 26, 2021

A 26ª Conferência das Partes (COP 26) será sediada em Glasgow (Escócia) entre os dias 31 de outubro a 12 de novembro. As COPs são os eventos de maior relevância global quando o assunto é a crise climática, uma vez que reúnem as lideranças das nações signatárias da Convenção quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Em um momento no qual a humanidade retoma gradativamente as suas atividades, essa COP tem algumas particularidades que merecem atenção:


É a primeira COP após a pandemia Covid-19

Desde a primeira COP, realizada em Berlim, em 1995, nunca havíamos ficado um ano sem a conferência. No entanto, a COP 26, que deveria ter ocorrido em novembro de 2020, precisou ser adiada, dada a gravidade das consequências da pandemia do Covid-19 no mundo, que ainda se via em estágios muito iniciais de uma possível vacinação em massa.

Esse cenário potencializou um senso de urgência na humanidade. Isso porque muitas correlações são claras entre as duas crises. Um estudo (Klenert et al., 2020) listou cinco lições da pandemia, aplicáveis às mudanças climáticas:

  1. O atraso custa caro.
  2. O desenho das políticas precisa superar o viés do julgamento humano.
  3. A desigualdade pode ser exacerbada sem uma ação em tempo hábil.
  4. Problemas globais requerem múltiplas formas de cooperação internacional.
  5. Transparência é necessária.


Uma pesquisa realizada pelo Fundo Monetário Internacional – FMI, em 2021, também identificou um aumento na preocupação de pessoas em relação às mudanças climáticas após a pandemia. 

43% das pessoas estão mais preocupadas com as mudanças climáticas hoje em relação ao que estavam antes da pandemia.

Este comportamento também foi observado no Mercado Voluntário de Carbono, com resultados crescentes mesmo em um período atípico da economia (confira mais no artigo publicado no blog em novembro do ano passado). Segundo o último relatório publicado pela iniciativa Ecosystem Market Place, espera-se um número recorde de transações de créditos voluntários de carbono em 2021, superando 1 bilhão de dólares.

Assim, espera-se que a COP26 seja palco de discussões ainda mais latentes sobre a ação global necessária.


É precedida de um novo (e preocupante) relatório do IPCC

Os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), desde 1990, vêm repetidamente servindo de subsídio para a ação climática global, já que fornecem dados e opiniões científicas robustas sobre os eventos climáticos e suas consequências. Sempre que estes relatórios vêm a público, costumam reforçar preocupações e aquecer a discussão no nível internacional. Foi o que ocorreu em sua 5ª versão, lançada em 2014, que foi determinante para a meta traçada no Acordo de Paris, também conhecida como “o desafio dos 2 graus ou preferencialmente, 1,5 grau”. 

Este ano não deverá ser diferente. A 6ª publicação do IPCC foi lançada em agosto deste ano, com muitas atualizações desde o último relatório (AR5) quanto às evidências e ao conhecimento de eventos climáticos extremos impulsionados pela mudança climática. A opinião é categórica: 

“Os cientistas não têm dúvidas de que as atividades humanas aqueceram o planeta. Mudanças rápidas e generalizadas ocorreram no clima do planeta e alguns impactos estão agora se concretizando.”

Dentre os principais apontamentos do trabalho, está uma avaliação das metas do Acordo de Paris. O relatório é claro: tanto os limites de aquecimento de 1,5°C como de 2°C serão ultrapassados durante o século 21, a menos que reduzamos a zero, por volta de 2050, as emissões líquidas de CO2 e de outros de gases de efeito estufa. Isso reforça a relevância dos compromissos “Net Zero” que vêm sendo adotados por muitas organizações, principalmente no último ano, como aquelas participantes do Pacto Global das Nações Unidas, denominado Climate Ambition Accelerator” ou, no Brasil, “Ambição Net Zero.


É momento de consolidar metas de Paris, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos voltam para o jogo

O Acordo de Paris foi firmado em 2015, mas o momento de consolidar as decisões é agora. Isso porque ele funciona em ciclos de 5 anos e em 2020, 5 anos após a sua decisão, seria o marco inicial para que os países entregassem planos sólidos de como atingir aquilo que se propuseram a fazer em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Uma vez que a COP não ocorreu em 2020, tais planos estão sendo enviados neste encontro.

Dentre as principais negociações esperadas no encontro, estão:

1. Consolidar o Manual do Acordo de Paris e deslanchar os mecanismos de mercado

Conhecido como “The Paris Rulebook”, o documento vem sendo desenvolvido desde 2016 para estabelecer regras claras sobre o funcionamento do Acordo, bem como implementar seus artigos, dentre eles aqueles que tratam de mecanismos de financiamento e mercado. A finalização deste documento é essencial para destravar ações em prol a mitigação e adaptação climática.

Especificamente quanto à continuação de um mercado global de carbono, assim como foi feito em Kyoto, espera-se ter avanços significativos na implantação do Artigo 6 do acordo. Muitos países, dentre eles o Brasil, já se posicionaram a favor deste mecanismo, que poderá fortalecer um mercado já aquecido de redução de emissões.

2. Firmar compromissos coerentes e com linhas do tempo compatíveis

Para atingir uma emissão líquida zero até 2050 e conter o aumento da temperatura média do planeta em até 1,5°C, será necessário alinhar as ações – ou seja – garantir que os planos traçados são capazes de atingir esse objetivo, no período necessário.

Neste tema, discussões recorrentes e que geralmente causam atrasos nas definições são aquelas que tratam da responsabilização das nações no que tange às emissões. 

Recentemente, o Carbon Brief publicou uma análise acerca da distribuição das emissões históricas entre países. Os resultados podem ser conferidos de forma bem didática no vídeo disponibilizado por eles:

Os números mostram constatações importantes, tais como o posicionamento dos Estados Unidos e China como nações com emissões históricas mais relevantes – o que torna muito coerente (e necessária) a decisão norte-americana de retornar ao Acordo, um mês após a posse do atual presidente Joe Binden. O compromisso do país foi publicamente reforçado na ocasião do “Summit on Climate” organizado em abril deste ano.

Outro aspecto que merece atenção na análise do Carbon Brief é o fato de, pela primeira vez, terem sido consideradas as emissões decorrentes de uso do solo e florestas, o que alterou significativamente o top 10 dos mais emissores, colocando o Brasil em 4° lugar.

Informações como essas são subsídio para que os países apresentem metas alinhadas à sua contribuição no cenário como um todo.

3. Mobilizar o financiamento climático

O financiamento climático é um ponto fundamental do Acordo de Paris, principalmente para alavancar ações de adaptação e mitigação, bem como de proteção de comunidades vulneráveis e habitats naturais – ou seja, questões que precisam ser tratadas de forma conjunta. Dentre as discussões de Paris, foi estabelecido o compromisso de levantar pelo menos 100 bilhões de dólares em 2020, meta que não foi atingida em tempo, em parte pelo impacto da pandemia Covid-19. 

Um relatório independente publicado em dezembro de 2020 mostrou que o avanço dos fundos anuais para a crise climática desde 2013 atingiu uma quantia próxima de 80 bilhões em 2019. Para os autores, atingir e escalar anualmente a meta dos 100 bilhões, é mandatório para conter a crise climática. O desafio, repetem, é fazer isso em conjunto com a recuperação econômica pós-Covid-19. No entanto, são objetivos que podem e devem convergir – aliar a recuperação econômica com uma economia global e resiliente de baixo carbono.


E como está o Brasil neste cenário?

Na Cúpula de Líderes sobre o Clima promovida por Biden em abril deste ano, o Brasil reforçou a sua proposta original: diminuir 37% das suas emissões até 2025 e 43% até 2030, além de reduzir em 10 anos o compromisso com a neutralização das emissões líquidas em carbono – agora até 2050. Segundo o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa – SEEG, as emissões brasileiras ainda se concentram principalmente nos setores de mudança do uso da terra e agropecuária, conforme figura.

Gráfico, Gráfico de barras

Descrição gerada automaticamente

Fonte: SEEG, 2020. Emissões totais do Brasil (1990-2019), distribuídas por setor.

Tais temas são sensíveis, em um período no qual registramos o segundo pior ano de desmatamento na série histórica da Amazônia dos últimos 10 anos, fato que tem ocasionado desconforto diplomático. Segundo recomendações da Coalização Brasil Clima Florestas e Agricultura

“Para inverter esse jogo, porém, o Brasil precisa repensar sua atual gestão de uso da terra, consolidando-se como liderança internacional de uma nova economia florestal e inspirando-se em seu longo histórico de contribuições para a conservação do meio ambiente”. 

Isso também se traduz em uma agenda climática forte e objetiva, pautada em metas ambiciosas e planejadas. Considerando o perfil de emissões do país, é notória a relevância das chamadas soluções baseadas na natureza para tal, em especial ações para conter o desmatamento na Amazonia e para recuperar áreas agrícolas degradadas.

A Radicle aposta em tais soluções, que consistem no coração do Programa Fazendas Vivas, a principal atuação da empresa no Brasil.

As expectativas são altas e a esperança é de que a urgência climática seja devidamente tratada nesta COP. Afinal, como disse Barak Obama: “Nós somos a primeira geração a sentir os efeitos das mudanças climáticas e a última geração que pode fazer algo a respeito”. É tempo de agir.

Texto escrito por Elisa Guida, Especialista em mercados de carbono na Radicle Brazil